O problema da gamificação
Na melhor das hipóteses, a gamificação é inútil. Na pior, pode destruir a cultura da sua empresa.
Gregers Knudsen
Co-Founder, CEO
A gamificação é muitas vezes apresentada como uma ferramenta poderosa para o envolvimento dos colaboradores. No entanto, embora possa ser útil em objetivos individuais, como aprender matemática ou uma nova língua, é perigoso usá-la como sistema de recompensas para toda a empresa. Este artigo explica porquê.
A boa interação é uma necessidade e uma recompensa
Há milénios que a interação humana assenta na comunicação: diálogo e reações. Diz algo engraçado e eu rio-me. Alguém é simpático connosco e sorrimos. Faz uma pergunta, eu respondo e diz “obrigado”. As reações e os comentários são, por si só, a recompensa. Pergunte a qualquer professor ou humorista porque faz o que faz.
Este sistema funciona há muito tempo. E aplica-se também às redes sociais: publica algo e as pessoas reagem. Velhos amigos enviam corações e alguém deixa um comentário interessante. Provavelmente é uma das razões pelas quais as redes sociais conquistaram o mundo: queremos a atenção, os comentários e as reações dos outros.
Cultura empresarial
Uma parte enorme de uma boa cultura empresarial é essa mesma interação humana: boa comunicação, receber feedback, ser elogiado pelo esforço e ter colegas compreensivos que nos apoiam. Os bons líderes ouvem, ajudam e dão os conselhos de que precisamos para evoluir na função e, muitas vezes, como pessoas.
Transformar tudo num jogo
Na década de 2010, a gamificação estava na moda na tecnologia. “Vamos transformar tudo num jogo e as pessoas vão estar felizes e divertir-se ao mesmo tempo”, ou qualquer coisa do género.
Pergunte a quem implementou uma plataforma de formação gamificada na sua empresa e todos vão dizer o mesmo: funciona durante uma semana com os novos colaboradores e depois as pessoas deixam de se importar com medalhas ou pontos. Talvez 5% se importem, mas a grande maioria não. Dê-lhes feedback humano verdadeiro. É isso que importa às pessoas.
O perigo de gamificar a interação social
Algumas pessoas da tecnologia decidiram até: “Vamos transformar também a interação social num jogo!” Ou seja, as pessoas da organização ganham pontos por gostar, ver e comentar, por exemplo, publicações no mural. A ideia é: “Se transformarmos a interação humana num jogo, as pessoas interagem mais e a cultura da empresa melhora.” Mas acontece exatamente o contrário.
Quando cria um sistema interno de pontos em que cada pessoa ganha pontos por gostar e reagir às publicações dos outros, está a desvalorizar essa interação humana tão importante. Quem fez a publicação a que está a reagir vai provavelmente pensar: “Só está a pôr gosto para ganhar pontos.” E assim instalou desconfiança e egoísmo na organização, duas coisas que são veneno para a cultura de uma empresa.
Além disso, as poucas pessoas que se importam com os pontos começam a fazer batota: abrem a app e percorrem as notícias sem as ler. Agora os seus dados também são inúteis. Quem leu de facto e quem o fez só pelos pontos? Nunca vai saber.
E a ideia de que as pessoas devem competir umas contra as outras em vez de trabalharem em equipa está ultrapassada e não faz sentido. O mais provável é afastar os melhores elementos de equipa que tem. Fazer um ótimo trabalho pela equipa não aparece nos pontos.
Deixe a sua cultura crescer
Quando se põe tecnologia no meio da interação humana, tem de ser um meio sem esforço. A sua função principal é deixar a comunicação (feedback, comentários, gostos e reações) fluir livremente entre as pessoas. Tem de ser rápida e intuitiva. Não deve pensar na app que está a usar. Deve apenas ver e sentir as pessoas com quem ela o liga.
Nesse sentido, uma boa tecnologia de comunicação é como um árbitro de futebol: faz bem o seu trabalho quando não rouba a atenção ao jogo.